História do Uso e das Técnicas de Manejo da Bengala.
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Relatos,
pinturas e escritos vêm registrando historicamente o uso de
instrumentos auxiliares pelos indivíduos com deficiência visual na
realização dos seus deslocamentos, uma vez que cajados, bastões e
bengalas foram empregados, em diversas épocas, por muitos deles com
as finalidades de proteção, orientação e exploração do espaço.
A
leitura atenta dos desenhos encontrados em cavernas, da literatura
bíblica e da obra de Diderot (1979) dão conta de que evoluções na
forma e no uso deste instrumento aconteceram nos vários contextos
socioculturais. O cajado de Isaac, por exemplo, evoluiu para uma
bengala, a qual teve suas funções ampliadas de instrumento de
orientação e proteção para exploração, busca e reconhecimento
de objetos e do ambiente.
Inicialmente,
o manuseio e o manejo da bengala aconteceram muito mais pela
intuição, bom senso e curiosidade do indivíduo com deficiência
visual, mas que deram
condições a muitos cegos de romperem com uma
passividade e acomodação socialmente impostas a eles em situações
até mesmo diárias. Com o tempo, entretanto, surgiram técnicas e
estratégias específicas que facilitaram, oportunizaram maior
segurança e ampliaram as possibilidades de deslocamentos
independentes no ambiente.
Sauerberger
(1996) relata que estas técnicas foram impulsionadas a partir da II
Guerra Mundial, quando muitos soldados americanos que tinham ficado
cegos em batalhas, foram enviados para hospitais em Valley
Forge e Dibble com o objetivo de realizarem
posteriormente o programa de reabilitação para cegos
em Avon, Connecticut. Os instrutores deste programa não
ensinavam técnicas ou permitiam o uso da bengala, pois estas eram
proibidas. Contudo, durante as orientações, encorajavam estes
pacientes a estarem atentos e utilizarem estratégias como
ecolocação*, mudanças na superfície do chão, layoutsespaciais
e marcas no terreno de prédios e campos.
Para
o provimento de serviços aos soldados, enquanto eles se recuperavam
no Valley Forgee antes que eles fossem para Avon, os
militares procuraram por pessoas que tivessem experiência com
cegueira. Então, como informa Sauerberger (1996), eles recrutaram
Warren Bledsoe e Richard Hoover porque ambos haviam trabalhado na
Escola de Cegos em Maryland (Maryland School for the Blind -
MSB). Bledsoe, antes de ingressar no exército, havia sido ensaísta
dramático e professor de inglês, enquanto Richard Hoover foi
treinador atlético e ensinou matemática naquela escola,
tornando-se, posteriormente, oftalmologista.
Um
dia, quando o conselho em Valley Forge discutia sobre o que
fazer com um grupo recém-chegado de soldados cegos, Hoover
considerou que a primeira coisa que eles deveriam saber era como
circular. Após este episódio, Hoover e Bledsoe discutiram sobre a
funcionalidade do uso somente da ecolocação para obstáculos na
caminhada, como acontecia em Avon. Deram-se conta, então, de
que esta atividade não era suficiente e que uma bengala era
necessária. Hoover, então, começou a desenvolver uma técnica de
bengala. Para isto, vendou-se a fim de tentar várias técnicas e
pediu a muitos outros para experimentarem. Depois de muitas
tentativas e erros, ele se deu conta da necessidade de uma bengala
leve movida em arco à frente da pessoa, com a bengala tocando no
lado oposto do pé que avança. Esta técnica da bengala de Hoover,
também chamada técnica de toque da bengala, iria revolucionar a
mobilidade independente da pessoa cega (Sauerberger, 1996).
Bledsoe
e outros instrutores aprenderam a técnica do toque de bengala e,
juntamente com Hoover, as ensinaram para os soldados cegos que
estavam se recuperando no Hospital de Valley Forge. Russ
Williams, um dos soldados que ficou cego depois da invasão normanda,
foi o primeiro deles a aprender esta técnica. Quando foi para Avon,
entretanto, foi impedido de usar a bengala e aprendeu somente
técnicas de orientação, incluindo o uso do som, sombras e
ecolocação.
Depois
de ter incorporado tudo o que havia aprendido em cada um dos
programas, Russ Williams começou a desenvolver técnicas e desafiar
suas habilidades para alcançar e ampliar sua independência,
retornando para Valley Forge onde ensinou Braille e outras
habilidades e aconselhou outros soldados que tinham experiência do
recente traumatismo da cegueira.
No
entanto, a técnica de toque de bengala e o treinamento que a
acompanhava não eram geralmente aceitos pelas agências civis ou
pelas próprias autoridades militares. Por este motivo, Bledsoe
trabalhou diligentemente para advogar esta causa, tornando-se
habilidoso em estratégias políticas e administrativas para manter o
programa.
Russ
Williams foi escolhido para chefe do novo programa de reabilitação
no Hines Hospital. Bledsoe e Williams tiveram que recrutar e treinar
novos instrutores, como Eddie Mees, Alford "Dee" Corbett,
Stanley Suterko, Bud Thuis e Larry Blaha.
Bledsoe
ensinou aos novos instrutores a técnica de bengala, desenvolvida por
Hoover; Williams ensinou a eles as técnicas que havia aprendido
em Valley Forge, em Avon, e aquelas que ele próprio havia
desenvolvido para ampliar a independência e a segurança nos
deslocamentos. Deste modo, o êxito no desenvolvimento das técnicas
e programas de Orientação e mobilidade (OM) é atribuído, em
grande parte, à determinação de Russ Williams na aprendizagem e no
ensino dos conhecimentos de OM e, parcialmente, à sua grande
expectativa e confiança na aprendizagem e aplicação destas
técnicas pelos demais veteranos também cegos.
Sauerberger
(1996) assinala que, quando os instrutores começaram a ensinar os
veteranos cegos, as técnicas e estratégias de OM começaram a ser
modificadas. Estas mudanças foram atribuídas ao fato de que as
aulas e técnicas ficaram crescentemente mais sofisticadas, as
expectativas se fortaleceram e os instrutores tornavam-se mais e mais
sensíveis e criativos frente às necessidades dos veteranos cegos.
Com
este resgate histórico, percebemos a fundamental importância e
avanços obtidos na orientação e na mobilidade do indivíduo com
deficiência visual a partir da organização de técnicas e
estratégias elaboradas por Richard Hoover, William Bladsoe e Russ
Williams: Hoover, contribuindo com a modificação ergonômica da
bengala, a qual deixou de ser um instrumento de apoio para tornar-se
um instrumento de orientação e exploração do ambiente pela
técnica do toque; Bledsoe, participando ativamente como instrutor
das técnicas de OM e articulador de estratégias políticas e
burocráticas para a manutenção dos programas de reabilitação;
Williams, acreditando nas possibilidades da pessoa cega, aprendendo,
buscando novas técnicas de OM e as ensinando a outros indivíduos
com deficiência visual, bem como formando novos instrutores de OM.
(*)Nota:
Telford e Sawrey (1984) esclarecem que ecolocação, ou visão
facial, é a habilidade desenvolvida pelo indivíduo cego de
localizar-se e orientar-se auditivamente pela reverberação dos sons
em obstáculos, formando ecos, a partir da emissão de estalos com a
boca ou com os dedos, palmas, batidas com a própria bengala ou com
os sons dos próprios passos.
Bibliografia:
DIDEROT.
Carta sobre os cegos para uso dos que vêem. In: DIDEROT. Textos
escolhidos. São Paulo: Abril, 1979.
HOFFMANN,
Sonia B. O outro social: um obstáculo a ser vencido pela criança
cega congênita e a bengala branca - Estudo nas culturas brasileira e
portuguesa. Porto, 2003. Tese apresentada às provas de Doutoramento
em Ciências do Desporto. Faculdade de Ciências do Desporto e de
Educação Física. Universidade do Porto (Portugal).
SAUERBeRGER,
Dona. O&M living history: where did our O&M techniques come
from? Metropolitan Washington O&M Association, May 1996. Acesso
em: 24 mar. 2001.
WELSH,
Richard L.; BLASCH, Bruce B. Foundations of Orientation and
Mobility. New York: American Foundation for the Blind, 1980.
Disponível
em: www.diversidadeemcena.net
12/06/2009
- Sonia B. Hoffmann.
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